"Que as coisas continuem como antes, eis a catástrofe!" (Walter Benjamin)

“A cada experiência frustrada, recomeçam. Não encontraram a solução: a encontrarão. Jamais os assalta a idéia de que a solução não exista. Eis aí sua força” (José Carlos Mariátegui)


sábado, 23 de julho de 2011

Destino e Caráter

Autor: Walter Benjamin
Tradução: João Barrento


Destino e carácter são muitas vezes vistos em ligação causal, sendo o carácter referido como causa do destino. O que está subjacente a esta ideia é o seguinte: se, por um lado, o carácter de uma pessoa, ou seja, também o seu modo de reagir, fosse conhecido em todos os seus pormenores, e se, por outro lado, o acontecer universal fosse conhecido nos domínios em que se aproxima daquele carácter, seria possível prever exactamente, tanto o que aconteceria a esse carácter como o que ele seria capaz de realizar. Por outras palavras, poderíamos conhecer o seu destino. As concepções dominantes hoje não possibilitam um acesso mental directo ao conceito de destino. Por isso, o homem moderno, aceita a ideia de o carácter poder ser lido a partir dos traços físicos de uma pessoa, porque encontra de algum modo em si mesmo esse saber do carácter, enquanto a ideia análoga de ler o destino a partir das linhas da mão lhe parece inaceitável. Isto parece tão impossível como «prever o futuro»: nesta categoria inclui-se, sem mais, a previsão do destino, enquanto o carácter surge como algo que se situa no presente e no passado, como algo de reconhecível, portanto. Acontece, porém, que precisamente aqueles que se empenham em predizer o destino a partir dos mais diversos sinais afirmam que isso é imediatamente reconhecível ou, numa expressão mais prudente, está disponível para aqueles que sabem ler esses sinais (que encontram em si um saber absoluto e imediato do destino). A suposição de que o «estar disponível» de um qualquer destino futuro não contradiz, nem o conceito de destino, nem as capacidades cognitivas do homem para a sua predição, não é, como se verá, de todo absurda. De facto, tal como o carácter, também o destino só é perceptível por meio de sinais, e não em si mesmo, pois – apesar de este ou aquele traço de carácter, esta ou aquela trama do destino, poder estar directamente debaixo dos nossos olhos – o contexto em que aqueles conceitos são usados nunca pode «estar disponível» a não ser por meio de sinais, porque se situa acima do imediatamente visível. O sistema de sinais caracteriológicos é em geral limitado ao corpo, se exceptuarmos o significado caracteriológico daqueles sinais que o horóscopo explora; de acordo com a tradição, os sinais do destino podem encontrar-se, para além do corpo, também em todos os fenómenos da vida exterior. Mas a relação entre o sinal e aquilo que é sinalizado constitui em ambas as esferas um problema igualmente fechado e complexo, mas diferente nos dois casos, porque, apesar de toda a observação superficial e de todas as falsas interpretações dos sinais, eles não podem, em nenhum dos sistemas, carácter ou destino, gerar significação com base em relações causais. Uma relação de sentido nunca pode ter um fundamento causal, ainda que no caso presente aqueles sinais, na sua existência, possam ter sido suscitados de forma causal pelo destino e pelo carácter. No que se segue não vamos investigar de que modo se manifesta um tal sistema de sinais para o carácter e para o destino; a reflexão centrar-se-á exclusivamente no objecto sinalizado.

Fonte: www.lusofia.net
Texto na íntegra: Aqui

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O filósofo mascarado

Michael Focault
Tradução: Selvino José Assmann


Le Philosophe masqué (entrevista a C. Delacampagne) em ‘Le Monde" n. 10945, de 06 de abril de 1980: "Le Monde-Dimanche", pp. I e XVII.

Em janeiro de 1980, Christian Delacampagne decidiu pedir a Foucault uma longa entrevista para o suplemento dominical de "Le Monde", dedicado principalmente aos debates culturais. Foucault aceitou imediatamente, mas apresentou uma condição de princípio: a entrevista deveria ficar anônima, o seu nome não deveria aparecer e importava eliminar todos os indícios que teriam permitido identificar a sua pessoa. Foucault justificou esta posição da seguinte maneira: a cena intelectual tornou-se presa da mídia, as "estrelas" prevalecem sobre as idéias, e o pensamento como tal acaba não sendo reconhecido; conseqüência disso é que aquilo que se diz conta menos do que a personalidade de quem fala. E também este tipo de crítica com relação à "midiatização" corre o risco de ser menosprezada, caso for pronunciada por alguém que, sem querê-lo, já ocupa um lugar no sistema da mídia, como era o caso de Foucault. A fim de romper com semelhantes efeitos perversos e para tentar que fosse dita uma palavra que não pudesse ser aniquilada pelo fama do autor, convinha decidir-se a entrar no anonimato. A idéia agradou a Delacampgne. Acordaram que a entrevista fosse feita a um "filósofo mascarado", isento de uma precisa identidade. Faltava convencer "Le Monde", que queria uma entrevista com Foucault, a aceitar um texto de "ninguém". Foi difícil, mas Foucault mostrou-se inflexível.
O segredo foi conservado até à morte de Foucault. Parece que bem poucos conseguiram descobri-lo. Em seguida, "Le Monde" e a editora La Découverte concordaram em juntar em volume esta entrevista com outros textos do mesmo autor. Conforme acontece nestes casos, "Le Monde" decidiu unilateralmente revelar o verdadeiro nome do "filósofo mascarado". O texto da entrevista cabe integralmente a Foucault, que elaborou inclusive as perguntas, junto com Delacampagne, e reescreveu com muito cuidado cada resposta. 

Permita-me, em primeiro lugar, perguntar-lhe por que escolhe o anonimato.
Imagino que você conheça a história daqueles psicólogos que apresentaram breve filme numa localidade no coração da África profunda. Pedem aos espectadores que narrem a história da forma como a entenderam. Pois bem, de um drama com três personagens, só uma coisa os havia interessado: a passagem das sombras e das luzes através das árvores.
Entre nós, os personagens ditam lei à percepção. Os olhos voltam-se preferivelmente para as figuras que vão e vêm, aparecem e desaparecem.
Por que lhe sugeri de usar o anonimato? Por saudades do tempo em que eu era absolutamente desconhecido e, portanto, aquilo que dizia tinha alguma possibilidade de ser entendido. O contato imediato com o eventual leitor não sofria interferências. Os efeitos do livro refletiam-se em lugares imprevistos e desenhavam formas a que nunca havia pensado. O nome constitui uma facilitação.
Gostaria de propor um jogo: o do "ano sem nome". Por um ano publicar-se-iam apenas livros sem o nome do autor. Os críticos deveriam haver-se com uma produção completamente anônima. Mas penso que, talvez, não teriam nada a dizer: todos os autores esperariam o ano sucessivo para publicarem os seus livros...

Você acredita que, hoje, os intelectuais falam demais? Que nos atrapalham com os seus discursos diante de qualquer mínimo pretexto e, muitas vezes, até mesmo sem pretexto algum?
A morte dos intelectuais parece-me um estranho conceito. Intelectuais, nunca os encontrei. Encontrei pessoas que escrevem romances e pessoas que curam os doentes. Pessoas que estudam economia e pessoas que compõem música eletrônica. Encontrei pessoas que ensinam, pessoas que pintam e pessoas de quem não entendi se faziam alguma coisa. Mas nunca encontrei intelectuais.
Pelo contrário, encontrei muitas pessoas que falam do intelectual. E, por escutá-los tanto, construí para mim uma idéia de que tipo de animal se trata. Não é difícil, é o culpado. Culpado um pouco de tudo: de falar, de silenciar, de não fazer nada, de meter-se em tudo... Em suma, o intelectual é a matéria-prima a julgar, a condenar, a excluir...
Não penso que os intelectuais falem demais, porque para mim não existem. Mas penso que o discurso sobre os intelectuais esteja passando do limite e seja pouco encorajante.
Tenho uma feia mania. Quando as pessoas falam tanto por falar, quando fazem discursos que ficam no ar, procuro imaginar onde levariam as suas palavras se fossem transcritas na realidade. Quando "criticam" alguém, quando "denunciam" as suas idéias, quando "condenam" o que escreve, imagino-os numa situação ideal em que têm pleno poder sobre ele. Reproduzo as suas palavras no primeiro significado: "demolir", "abater", "reduzir ao silêncio", "sepultar". E vejo abrir-se a radiante cidade em que o intelectual certamente seria prisioneiro e enforcado, com maior razão se fosse um teórico. É verdade, não vivemos em uma região em que os intelectuais são mandados ao diabo; mas, na realidade, diga-me, por acaso ouviu falar de um certo Toni Negri? Por acaso não está na prisão exatamente enquanto intelectual?

Texto na íntegra Aqui

Fonte: FOUCAULT, Michel. Archivio Foucault. Vol. 3. Estetica dell’esistenza, etica, politica. A cura di Alessandro Pandolfi. Milano, Feltrinelli, 1994, pp. 137-144.

Michael Focault

 Michel Foucault (Poitiers, 15 de outubro de 1926 — Paris, 25 de junho de 1984) foi um importante filósofo e professor da cátedra de História dos Sistemas de Pensamento no Collège de France desde 1970 a 1984. Todo o seu trabalho foi desenvolvido em uma arqueologia do saber filosófico, da experiência literária e da análise do discurso. Seu trabalho também se concentrou sobre a relação entre poder e governamentalidade, e das práticas de subjetivação.
Foucault é amplamente conhecido pelas suas críticas às instituições sociais, especialmente à psiquiatria, à medicina, às prisões, e por suas ideias e da evolução da história da sexualidade, as suas teorias gerais relativas à energia e à complexa relação entre poder e conhecimento, bem como para estudar a expressão do discurso em relação à história do pensamento ocidental, e tem sido amplamente discutido, a imagem da "morte do homem" anunciada em "As Palavras e Coisas", ou a ideia de subjetivação, reativada no interesse próprio de uma forma ainda problemática para a filosofia clássica do sujeito. Parece então que mais do que em análises da "identidade", por definição, estáticas e objetivadas, Foucault centra-se na "vida" e nos diferentes processos de subjetivação.
Se seu trabalho é muitas vezes descrito como pós-moderno ou pós-estruturalista, por comentadores e críticos contemporâneos, ele foi mais frequentemente associado com o movimento estruturalista, especialmente nos primeiros anos após a publicação de "As Palavras e as Coisas". Inicialmente aceitou a filiação, posteriormente, ele marcou a sua distância à abordagem estruturalista, explicando que ao contrário desta última, não tinha adaptado uma abordagem formalista. Ele aceitou não ver o rótulo de pós-modernista aplicado ao seu trabalho, dizendo que preferia discutir como a definição de "modernidade" em si. Sua filiação intelectual pode estar relacionada ao modo como ele próprio definiu as funções do intelectual não garante certos valores, mas em questão de ver e dizer, seguindo um modelo de resposta intuitiva para o "intolerável .
As teorias sobre o saber, o poder e o sujeito romperam com as concepções modernas destes termos, motivo pelo qual é considerado por certos autores, contrariando a própria opinião de si mesmo, um pós-moderno. Os primeiros trabalhos (História da Loucura, O Nascimento da Clínica, As Palavras e as Coisas, A Arqueologia do Saber) seguem uma linha pós-estruturalista, o que não impede que seja considerado geralmente como um estruturalista devido a obras posteriores como Vigiar e Punir e A História da Sexualidade. Além desses livros, são publicadas hoje em dia transcrições de seus cursos realizados no Collège de France e inúmeras entrevistas, que auxiliam na introdução ao pensamento deste autor.
Michel Foucault é mais conhecido por ter destacado as formas de certas práticas das intituições em relação aos indivíduos. Ele destacou a grande semelhança nos modos de tratamento dado ou infligidos aos grandes grupos de indivíduos que constituem os limites do grupo social: os loucos, prisioneiros, alguns grupos de estrangeiros, soldados e crianças. Ele acredita que, em última análise, eles têm em comum a ser vistos com desconfiança e excluídos por uma regra em confinamento em instalações seguras, especializada, construída e organizada em modelos semelhantes (asilos, presídios, quartéis, escolas), inspirado no modelo monástico o que ele chamou de "instituição disciplinar".

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Michel_Foucault

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Ariano Suassuna

Olá,
Imagino o quanto vocês estão estranhando o fato de Ariano Suassuna ser postado em um Blog de Filosofia Contemporânea, mas eu explico.
Estava eu aqui vagando pela net a procura do texto O Auto da Compadecida para traçar um paralelo com a peça O Mercador de Veneza quando me deparei com um tesouro – sim pessoal podemos encontrar um tesouro escondido, enterrado e concretado na net – e nesses tempos de Cordel Encantado global achei extremamente oportuno que a preciosidade encontrada fosse disponibilizada para o deleite de todos. Assim, sem mais delongas apresento-lhes o genial Suassuna e seus dois tesouros contemporâneos O Auto da Compadecida e a História de amor de Romeu e Julieta.
*Ariano Vilar Suassuna (João Pessoa, 16 de junho de 1927) é um dramaturgo, romancista e poeta brasileiro.

Auto da Compadecida Aqui

A história de amor de Romeu e Julieta
Imitação Brasileira de Matteo Bandello

Personas dramáticas:
Antero Savedra, 1º Coro
Quaderna, 2º Coro
O Duque Capuleto
O Conde Montéquio
Romeu, menino
Três carrascos
Romeu, adulto
Mercúcio
Músicos, bailarinos e bailarinas
Julieta
Teobaldo
O Padre
A Criada
Figurantes:
Verona - a cidade do Recife
Mântua - a cidade de Olinda

A ação decorre em Verona e Mântua, ou seja, no Recife e em Olinda.
Na versão teatral, deve ser instalado um pequeno palco dentro do maior. No menor é que surgirão os bonecos que, conduzidos por atores, repetirão, para Romeu, adulto, a cena que ele viu em criança. Também nele é que acontecerá a noite de núpcias de Romeu e Julieta.
Deve haver também, no palco maior, duas cadeiras, nas quais se sentarão Antero Savedra e Quaderna nos momentos em que o Coro emudece e falam os personagens.

Quaderna:
Vou contar, neste Romance,
a história de Romeu.
A sua curta existência,
e tudo o que padeceu.
Foi a história mais tocante
que a minha Pena escreveu.

É uma história conhecida
em quase toda Nação.
No Teatro e no Cinema,
tem causado sensação,
deixando amargas lembranças
no mais brutal coração.

O que sofreu Julieta,
quem, como eu, já tem lido,
todo o seu padecimento
como foi acontecido,
depois de seis, sete anos,
inda não está esquecido.

Verona, antiga cidade
da Província italiana,
foi berço dos Capuletos,
aquela raça tirana,
inimiga dos Montéquios,
família honesta e humana.

O Duque de Capuleto,
que tinha grande poder,
queria, ao Conde Montéquio,
aniquilar e vencer.
Os dois viviam sonhando
ver um ao outro morrer.

Ali, tudo era desgosto,
intriga e rivalidade.
Um dia, corre a notícia
que assombrou toda a cidade,
notícia que era o começo
da grande fatalidade.

Romeu tinha quatro anos
quando veio um pelotão,
mandado por Capuleto
por uma cruel traição.
Nesse dia foi Montéquio
trancado numa Prisão.

Ficou o Conde Montéquio
naquela Prisão sombria.
Ali, ele ignorava
se era de-noite ou de-dia.
Era preso e acorrentado:
nem se mexer não podia!


Montéquio:
Aqui estou acorrentado,
sem socorro de ninguém.
Aqui estou aprisionado,
sem saber como e por quem!
E, ah meu Deus, minha mulher
vem ali, presa também!

Que dor no meu coração
ao ver minha Esposa amada,
trazida por três Carrascos,
um de-lança, dois de-espada!
E ela com Romeu nos braços,
triste, só e abandonada!

Condessa:
Eu te abraço, meu Marido,
minhas queixas relatando!
Vê nosso filho Romeu
que, inocente, está chorando!

Capuleto:
Aqui é chegada a hora
de na Prisão ir entrando!

Montéquio, agora me pagas,
hoje eu hei de me vingar!
Um dia, jurei vingança
e agora vou te mostrar
o furor da minha ira
a que ponto vai chegar!

Estás aí, prisioneiro,
pra mim não tens cotação.
Vou decidir tua sorte,
tenha ou não tenha razão!
A vida de tua Esposa
está aqui, na minha mão!

Tua querida Mulher
vai morrer, para teu mal!
Talvez ela nem mereça
este golpe tão fatal.
Vai morrer em tua vista,
cravada por meu Punhal!

Montéquio:
Eu te digo, Capuleto:
tu roubaste o meu direito!
Prendeste-me à traição,
és um Duque sem conceito!
Mata-me a mim! Que ela viva,
e eu morrerei satisfeito!

Capuleto:
Montéquio, eu vou matá-la,
não adianta chorar!
Te odeio profundamente,
mas vivo vou te deixar,
para que a morte dela
tu sempre possas lembrar.

Condessa:
Ah, meu Deus, que sina triste!
Me sinto desfalecida!
Olho aqui para meu filho,
por ele choro, sentida,
pois vejo que não me resta
nem meia hora de vida!

Capuleto cochicha ao ouvido de um dos carrascos, o qual arranca Romeu dos braços da mãe.

Capuleto:
A teus pedidos, Montéquio,
meu sangue não atendeu!
Já ordenei ao Carrasco,
que logo me obedeceu!
Dos braços de sua Mãe
foi arrancado Romeu!

O Pai dele está aí,
infeliz e acorrentado!
Tu, Mulher, vem para cá,
aqui, pr'este outro lado,
que é pra teu Marido ver
como, em ti, serei vingado!

Eu já tirei meu Punhal,
que à cintura carregava.
Já cravo no peito dela
-era o que sempre jurava!-
e o Punhal já vai rangindo,
enquanto o sangue golfava!

Condessa:
Senhor Duque Capuleto,
seu coração é perverso!
Tenha dó do meu filhinho,
que ainda dorme de-berço!

Capuleto:
Não! Vou calcar o Punhal
para entrar até o terço!

Condessa:
Com a dor da punhalada
meu corpo se estremeceu!
Adeus, meu querido Esposo,
cuida do nosso Romeu!
Diz a Romeu que a Mãe dele,
sendo inocente, morreu!

Os músicos repetem a primeira frase do "Romance de Minervina".

Capuleto:
Já está morta a Condessa,
prostrada na Laje fria!
Vou arrancar o Punhal,
onde o sangue já esfria.
E mostro ao Marido dela
que foi como eu garantia!

Então, querido Montéquio,
já conheces quem sou eu?
Guarda o Punhal para ti:
agora o Punhal é teu!
Quando teu filho crescer,
dá de presente a Romeu!

O corpo, aqui, da Condessa,
não o deixo sepultar!
Vocês, Carrascos, o levem
pela rua, a se arrastar!
Depois, coloquem num saco
e joguem dentro do Mar!

Os músicos repetem a primeira frase do "Romance de Minervina".

Quaderna:
Aí, tendo praticado
tamanha barbaridade,
Capuleto foi pra casa.
Quando chegou à cidade,
deu ordem pra que Montéquio
fosse posto em liberdade.

Montéquio, desesperado,
saiu daquela Prisão,
dando uma mão para o filho,
com o Punhal na outra mão.
Foi chorar a sua sorte,
sozinho, na solidão.

-Dezesseis anos passaram!-

Romeu via sempre o Pai
muito triste, a suspirar.
O filho, no seu segredo
não podia penetrar.
Como o Pai nunca se abria,
Romeu não quis perguntar.

Quando o conde achou que o filho
era capaz de razão,
e, pr'a vingança, podia
tomar uma decisão,
chamou-o secretamente,
fez-lhe a comunicação.

Com os músicos tocando a primeira estrofe do "Romance de Minervina", abre-se a cortina do palco menor. O ator que faz Montéquio retira-se com Romeu para junto de Antero Savedra e Quaderna, e os quatro passam a formar uma espécie de pequeno público para a representação dos bonecos. A critério do encenador, a cena que se segue pode ser muda, caso em que os bonecos atuarão ao som da música, que continua.

Montéquio-boneco:
Aqui estou acorrentado,
sem socorro de ninguém.
Aqui estou aprisionado,
sem saber como e por quem!
E, ah meu Deus, minha Mulher
vem ali, presa também!

Que dor no meu coração
ao ver minha Esposa amada,
trazida por três Carrascos,
um de-lança, dois de-espada!
Ela com Romeu nos braços,
triste, só e abandonada!

Condessa-boneca:
Eu te abraço, meu Marido,
minhas queixas relatando!
Vê nosso filho Romeu
que, inocente, está chorando!

Capuleto-boneco:
Aqui é chegada a hora
de na Prisão ir entrando!

Montéquio, agora me pagas,
hoje eu hei de me vingar!
Um dia, jurei vingança,
e agora vou te mostrar
o furor da minha ira
a que ponto vai chegar!

Estás aí, prisioneiro,
pra mim não tens cotação.
Vou decidir tua sorte,
tenha ou não tenha razão!
A vida de tua Esposa
está aqui, na minha mão!

Tua querida Mulher
vai morrer, para teu mal!
Talvez ela nem mereça
este golpe tão fatal.
Vai morrer em tua vista,
cravada por meu Punhal!

Montéquio-boneco:
Eu te digo, Capuleto:
tu roubaste o meu direito!
Prendeste-me à traição,
és um Duque sem conceito!
Mata-me a mim! Que ela viva,
e eu morrerei satisfeito!

Capuleto-boneco:
Montéquio, eu vou matá-la,
não adianta chorar!
Te odeio profundamente,
mas vivo vou te deixar,
para que a morte dela
tu sempre possas lembrar.

Condessa-boneca:
Ah, meu Deus, que sina triste!
Me sinto desfalecida:
Olho aqui para meu filho,
por ele choro, sentida,
pois vejo que não me resta
nem meia hora de vida.

Aqui, os bonecos repetem a cena de Capuleto cochichando ao ouvido de um dos carrascos.

Capuleto-boneco:
A teus pedidos, Montéquio,
meu sangue não atendeu!
Já ordenei ao Carrasco,
que logo me obedeceu!
Dos braços de sua Mãe
foi arrancado Romeu!

O Pai dele está aí,
infeliz e acorrentado!
Tu, Mulher, vem para cá,
aqui, pr'este outro lado,
que é pra teu Marido ver
como, em ti, serei vingado!

Eu já tirei meu Punhal,
que à cintura carregava.
Já cravo no peito dela
-era o que sempre jurava!-
e o Punhal já vai rangindo,
enquanto o sangue golfava!

Condessa-boneca:
Senhor Duque Capuleto,
seu coração é perverso!
Tenha dó do meu filhinho,
que ainda dorme de-berço!

Capuleto-boneco:
Não! Vou calcar o Punhal
para entrar até o terço!

Condessa-boneca:
Com a dor da punhalada,
meu corpo se estremeceu!
Adeus, meu querido Esposo,
cuida do nosso Romeu!
Diz a Romeu que a Mãe dele,
sendo inocente, morreu!

Os músicos repetem a primeira frase do "Romance de Minervina".

Capuleto-boneco:
Já está morta a Condessa,
prostrada na Laje fria!
Vou arrancar o Punhal,
onde o sangue já esfria.
E mostro ao Marido dela
que foi como eu garantia!

Então, querido Montéquio,
já conheces quem sou eu?
Guarda o Punhal para ti:
agora o Punhal é teu!
Quando teu filho crescer,
dá, de-presente, a Romeu!

O corpo, aqui, da Condessa,
não o deixo sepultar!
Vocês, Carrascos, o levem
pela rua a se arrastar!
Depois, coloquem num saco
e joguem dentro do Mar!

Os músicos tocam a primeira frase e a primeira estrofe do "Romance de Minervina". Fecha-se a cortina do palco menor e Montéquio-ator continua a narração para o Romeu-ator.

Montéquio:
Romeu, foi este o Punhal
que a tua Mãe matou!
Faz hoje dezesseis anos
que tua Mãe expirou,
morta por este Punhal
que o próprio Duque cravou!

Ouve, meu filho, o que digo,
presta-me toda atenção!
O Duque de Capuleto
tem a nossa maldição,
pois tua Mãe, minha Esposa,
matou sem ter compaixão!

O Duque de Capuleto,
por meio de covardia,
mandou prender-me à traição,
pois eu de nada sabia!
Brutalmente me trancou
numa cruel Enxovia!

Depois, matou tua Mãe,
fez esta barbaridade!
Só então foi para casa,
e, ao chegar à cidade,
deu ordem para que eu fosse
colocado em liberdade.

Meu filho, foi quase morto
que eu saí da Prisão!
Uma mão eu dava a ti,
com o Punhal na outra mão!
Vim sofrer a dura sorte,
aqui nesta solidão!

Hoje inda choro, Romeu,
a nossa infelicidade!
Tenho te dado instrução
só por força de vontade!
Desde aquele dia vivo
fora da sociedade!

Isto que te digo agora
guardei na minha lembrança.
Passaram dezesseis anos,
eras ainda criança!
Meu filho, o tempo é chegado:
exijo nossa vingança!

É preciso que tu vingues
a tua Mãe malfadada!
Meu filho, toma o Punhal:
ela tem de ser vingada!

Parte, Romeu, sem demora!
Sai da sombra! Parte, vai!
Mata o Duque! Só assim
a minha dor se retrai!
Mata o duque! É o que te pede
o coração de teu Pai!

Romeu:
Eu recebo este Punhal
que o meu sangue derramou!
Beijando a Cruz de seu cabo,
juro o que meu Pai jurou!
Mato o Duque com o Punhal
que a minha Mãe me roubou!

Montéquio:
Recebo teu juramento
com muita satisfação,
pois vais cumprir a vingança
que te dei como missão!

Romeu:
Sim, eu juro a meu bom Pai
que vingo a sua Paixão!

Quaderna:
No outro dia, Romeu,
com um amigo dedicado,
viajou para Verona
e o castelo do Ducado.
Dizia para o amigo
que o Pai seria vingado.

Este amigo, de quem falo,
e que ia com Romeu,
junto a ele se criara,
junto com ele cresceu.
Eram como dois irmãos:
Mercúcio era o nome seu.

No dia em que os dois chegaram
lá nas terras do Ducado,
o aniversário da filha
do Duque era celebrado.
O Castelo estava em festa,
ricamente embandeirado.

Romeu saltou do cavalo
e combinou com o amigo.
Entraram lá, disfarçados,
naquele Castelo antigo,
pois ambos eram valentes,
não fugiam do perigo.

Os que estavam na festa,
tinham ido mascarados.
Assim fizeram os dois:
entraram fantasiados,
ambos de Castelo adentro,
em capotes, embuçados.

Dentro, tudo era alegria,
muitos rapazes dançavam.
Algumas moças, sentadas,
com seus noivos conversavam.
Tocavam alguns dos Músicos,
outros, alegres, cantavam.
Os atores e bailarinos dançam ao som de "Bernal Francês", que pode ser tocado com a música do "Romance da Bela Infanta", pois ela permite variação de ritmo.

Romance de Bernal Francês:

- Quem bate na minha porta?
Quem bate? Quem está aí?
É Dom Bernal Francês,
sua porta mande abrir!

- No deitar da minha Cama,
eu rompi o meu Frandil.
No descer da minha Escada,
me caiu o meu Chapim.
No abrir da minha Porta,
apagou-se o meu Candil.

Eu te pego pela mão,
te levo no meu Jardim,
te faço Cama de rosas,
travesseiro de Jasmim.
Te lavo em água-de-cheiro,
te deito em cima de mim.

- Deixem que volte de novo,
com minha Capa a cair.
Quero ver se a minha Dama
ainda lembra de mim!

- Tua Dama, Cavaleiro,
está morta, que eu já vi.
Os sinais que ela levava
vou dizer agora aqui.
Os sinos que lhe tocaram
por minha mão os tangi.
O Caixão em que a enterraram
era de ouro e marfim.

Palavras não eram ditas,
morre Bernal, no Jardim.
Esta foi a sua história,
foi este o seu triste fim.


Quaderna:
A filha de Capuleto,
a formosa Julieta,
dançava com um rapaz
que vestia roupa preta.
Tinha ao seio, por enfeite,
um cacho de violetas.

Romeu:
Meu Deus, estou encantado
com toda aquela beleza!
Aquela Moça parece
uma Fada, uma Princesa!
Mercúcio, quem é aquela?
Quem é aquela lindeza?

Mercúcio:
É filha de Capuleto!
O leque que ela trazia
caiu de sua bela mão,
quando, há pouco, se movia!

Romeu:
Eu vou lá! Vou apanhá-lo!
(Entregando o leque:)

O leque lhe pertencia?

Julieta:
Sim, o leque me pertence!
Muito obrigada, Senhor!
Em paga da gentileza
queira aceitar esta flor:
receba esta Violeta
em troca do seu favor!

Romeu:
Eu beijo esta doce Flor
de perfume delicado!
Vou guardá-la junto ao peito,
com todo amor e cuidado,
como se fosse uma Jóia
que aqui eu tivesse achado.

Eu não penso mais na jura
que fiz a meu velho Pai!
Pois o Amor é água pura
que em nossas almas cai,
e o desejo de vingança
na sede do Amor se esvai!

Deixe a dança, Julieta,
finja que vai passear.
Guardo comigo um segredo
que a você vou revelar.
Vá lá para a outra Sala:
me espere, que chego lá!

Julieta:
Sinto que empalideci,
que estou da cor de um Jasmim!
Para a outra Sala, não:
é melhor lá no Jardim!
Lá tu podes me dizer
o que desejas de mim!

Há pouco, quando falavas,
o meu peito estremecia!
Como te chamas?

Romeu:
Romeu!

Julieta:
Pois, Romeu, não sei se vias
que vieste me salvar
da tristeza em que eu vivia!
Que é que tens pra me dizer?

Romeu:
Escuta, linda Criança!
Eu vim tomar de teu Pai
a mais dura das vinganças.
Mas o Punhal com que eu vinha
deponho ante as tuas tranças!

Diante de tal beleza,
sinto meu peito chagado!
Por teus olhos verde-azuis,
eu fiquei enfeitiçado.
Eu estou louco de amor!
Estou cego, apaixonado!

Teu Pai matou minha Mãe,
quando eu era menino.
Jurei vingar essa morte,
porém decreta o Destino
que tudo seja esquecido,
ante teu rosto divino!

Serei perjuro! Jamais
a meu Pai eu voltarei!
A teus pés, divina imagem,
o teu Escravo serei!
Juro que junto de ti
viverei e morrerei!

Pois bem, Julieta: agora
eu quero este Amor selar!
Quero em tua linda boca
um beijo depositar!

Julieta:
O que é isto? Sem pudor,
eu já me deixo beijar?

Romeu:
Existe, só, um remédio
pra aliviar o pudor:
é repetirmos o beijo,
agora com mais calor!

Julieta:
Meu Deus, eu me sinto tonta!
Foi a dança ou é o Amor?

Romeu:
Julieta, quem é este
que sai ali, de um recanto,
pior que um Tigre feroz,
cheio de raiva e de espanto?


Julieta:
É o Marquês Teobaldo,
meu primo! Te odeia tanto!

Teobaldo:
Romeu, que fazes aqui?
Responde-me, miserável!
Que vieste procurar?
Teu sangue é sangue execrável!
Sai daqui, senão a morte
é teu fim inevitável!

Julieta, vai também,
senão serás arrastada!

Julieta:
Não, Romeu, não lhe respondas!
Meu primo, guarda a Espada!

Teobaldo:
Não desobedecerás
à minha ordem, já dada!

Romeu:
Teobaldo, Teobaldo!
Não toques nem sua mão!
Se tu deres mais um passo,
cairás morto no chão!
Pois minha Espada certeira
cortará teu Coração!

Os dois lutam.

Julieta:
Meu Deus! Romeu e Teobaldo
cruzam já suas Espadas!
Já sinto que vou cair
sobre o solo desmaiada!

Cai, Romeu mata Teobaldo. Julieta recobra os sentidos.

Meu Deus, o que se passou?
A luta está terminada!

Teobaldo já caiu,
por um golpe traspassado!
O pano de sua roupa
já está de sangue molhado!
E Romeu, de pé, contempla
o seu ferro ensanguentado!

Já lá chega, do Castelo,
o pessoal que dançava!

Capuleto:
O que foi que houve aqui?
Quem foi que tais gritos dava?
O quê? Teobaldo morto?
Meu sobrinho que eu amava?

Prendam já este assassino
e levem para a Prisão!
Vai ser condenado à morte,
sem demora e sem perdão!
Quem derramou o meu sangue
não merece compaixão!

Os músicos tocam "A Rosa Roseira".

Quaderna:
Fazia, já, sete dias
que Romeu fora detido,
quando, uma noite, ele ouviu
na Prisão grande ruído,
e apareceu Julieta,
envolta em branco vestido.

Julieta
Romeu, Romeu de minh'alma,
quanto sofri tua ausência!
Debalde pedi, por ti,
a meu Pai sua clemência!
Eu vim te tirar daqui,
desta cruel penitência!

Falei com um velho Padre,
a quem contei, lealmente,
que tinha por ti, Romeu,
uma paixão louca, ardente!
O Padre me prometeu
casar-nos secretamente!

Vem! Eu subornei os guardas:
Não há ninguém nos seguindo!
Já soou a meia-noite,
os meus Pais estão dormindo!
Não tenhas medo da Noite,
pois o Luar está lindo!

Romeu:
Meu Deus, que felicidade!
É a minha noiva-amante!

Julieta:
Vamos lá para a Capela,
chegamos lá num instante:
Lá, o Padre nos espera,
com o Coroinha-ajudante!

Enquanto os dois se casam, na presença do padre, os músicos tocam "Bernal Francês", a música da festa.

Quaderna:
Assim, Romeu, na Capela,
com Julieta casou!
Debaixo dos pés de Cristo
foi que ele se ajoelhou
e, diante de Deus, por ela,
amor eterno jurou!

O Padre:
Romeu, vou dar-lhe um conselho
é melhor você partir.
Você deve ir para Mântua,
lá, um tempo, residir.
Prometa à sua Mulher
ir dela se despedir.

Ela sai, vai esperá-lo,
fiel, em sua janela.
Você, daqui a momentos,
vai lá, para estar com ela.
Suba o muro do Castelo
e vá para o quarto dela.

Julieta:
Romeu, vou em tua frente,
para no Castelo esperar-te.
Por enquanto, aqui tu ficas,
para o Padre aconselhar-te,
pois o Padre é nosso amigo:
o que pretende é salvar-te!

Sai.

O Padre:
Muito bem, Romeu, meu filho!
Você agiu bem, Romeu!
Mas agora é necessário
cuidar do futuro seu.
Você não diga a ninguém
que quem os casou fui eu!

Hoje mesmo, antes que o Sol
tenha chegado a sair,
você deve ir para Mântua:
Julieta fica aqui.
Se o ambiente melhorar,
eu mandarei prevenir.

Na sua ausência, eu prometo
por Julieta velar.
O ódio de Capuleto
procurarei abrandar.
Se conseguir, a notícia
logo mando lhe levar.

Romeu:
Beijo-lhe a mão, meu bom Padre,
mas minh'alma está ferida!
Vou procurar Julieta,
vou procurar minha vida!
Sei que me arrisco, mas vou
celebrar a despedida!

Quaderna:
Ao chegar lá no Castelo
Romeu achou sua amada.
Julieta o esperava,
na varanda debruçada.
Romeu parecia ter
a alma toda exaltada!

Julieta:
Quem bate na minha Porta?
Quem bate? Quem está aí?

Romeu:
Ah, minha amada, é Romeu!
sua Porta venha abrir!

Abre-se a cortina do palco menor, onde se vê uma cama. Fala Julieta, enquanto se encaminha para lá, com Romeu.

Julieta:
No deitar da minha Cama,
se rompeu o meu Frandil.
No descer da minha Escada,
me caiu o meu Chapim.
Eu te pego pela mão,
tu entras no meu Jardim.
Te faço Cama de rosas,
travesseiro de Jasmim.
Te lavo em água-de-cheiro,
te deito em cima de mim.

Os dois entram e fecham a cortina.

Quaderna:
O que se passou ali
-digo ao público-auditor-
é impossível descrever,
tal foi a cena-de-amor!
Imagine quem já tenha
vivido um igual ardor.

Mas, pra falar do que houve,
uso um verso conhecido,
que não é da minha lavra,
pois caiu num outro ouvido.
Ele dá pálida idéia
do que ali foi sucedido.

Novamente a critério do encenador, a cena seguinte pode ser representada pelo ator que faz Romeu ou por dois bonecos que representem o casal. Romeu (ou o casal de bonecos) aparece por cima do travessão que sustém a cortina.

Romeu:
"Eu tirei minha Gravata,
ela tirou o Vestido.
Eu, o cinto, com Revólver,
ela seus quatro Corpinhos.
As anáguas engomadas
soavam nos meus ouvidos
como um tecido de seda
por vinte facas rompido.
Eu toquei seus belos peitos
que estavam adormecidos,
e eles se ergueram, de súbito,
como ramos de jacinto.
Naquela noite eu passei
pelo melhor dos caminhos,
montado em Potrinha branca,
mas sem Sela e sem estribos.
Suas coxas me escapavam,
como Peixes surpreendidos,
metade cheias de fogo,
metade cheias de frio".

Julieta:
"Ele tirou a Gravata,
eu tirei o meu Vestido.
Ele, o cinto, com Revólver,
e eu, meus quatro Corpinhos.
As anáguas engomadas
soavam nos meus ouvidos
como um tecido de seda
por vinte facas rompido.
Ele tocou nos meus Seios,
que estavam adormecidos,
e eles se ergueram de súbito,
como ramos de jacinto.
Naquela noite, corri
pelo melhor dos caminhos,
montada por um Ginete,
mas sem Sela e sem estribos.
Minhas coxas lhe escapavam,
como Peixes surpreendidos,
metade cheias de fogo,
metade cheias de frio".

Quaderna:
Então, que imagine o público
esta cena de noivado.
O tempo em que estiveram
aqueles dois abraçados.
Quantos beijos, quantos toques,
quantos êxtases trocados!

O Dia já vinha entrando
pela brecha da Alvorada.
Eles, coitados, pensavam
que inda era a Madrugada,
e Romeu, feliz, beijava
o corpo de sua Amada.

Quando, porém, conheceram
que o dia estava a chegar,
Romeu disse a Julieta:

Romeu:
Eu inda estava a sonhar!
Adeus! Nesta hora triste,
eu parto, vou te deixar!

Vamos viver separados,
pois o Destino assim quis.
Eu peço a Deus que te faça,
no mundo, muito feliz.
Eu partirei para o exílio:
cumpro uma Sorte infeliz!

Se algum dia tu souberes
que eu, longe de ti, morri,
murmura a Deus uma prece
por quem tanto amou a ti.
Derrama por mim teu pranto,
que eu, por ti, muito sofri.

Quanto a mim, também te juro
que, se morreres primeiro,
sobre o teu leito de morte
eu virei, triste romeiro,
dar, abraçado contigo,
meu suspiro derradeiro.

Eu estou sentindo um triste
pressentimento de Morte.
Minh'alma, como uma Nau
que está perdida e sem norte,
vagueia num Mar imenso,
entregue a terrível sorte.

Como vai ser triste e duro
o tempo que vou passar
longe de ti, Julieta,
da bênção do teu olhar!
Adeus, enfim: vou seguir!
Adeus: eu vou te deixar!

Adeus, Verona, onde deixo
meu Sonho, minha ilusão!
Adeus casas, ruas, praças,
e aves de arribação.
Adeus, Julieta! Eu parto,
mas fica o meu coração!

Quaderna:
Beijaram-se os dois amantes,
se abraçaram docemente.
Juraram que haveriam
de se amar eternamente.
E afinal se separaram,
chorando o Amor inocente.

Logo após Romeu deixava
a nobre e bela Morada.
Julieta, soluçando,
na Varanda debruçada,
ficou até que Romeu
se sumiu no pó da Estrada.
Daquele dia em diante,
Julieta não mais sorriu.
Sonhando pelo Jardim,
nunca mais ninguém a viu.
Do castelo de seu pai,
pra canto nenhum saiu.

Todos ficaram pasmados,
perante aquela tristeza.
Pensavam que era doença
sua profunda frieza.
Só à imagem de Romeu
é que se mantinha presa.